50 receitas

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Hoje eu perdi a voz.
Provavelmente em decorrência de uma simples inflamação na garganta - espero.
Essa situação me fez refletir o quanto é difícil a vida de quem não fala.
Obviamente a de quem possui outro tipo de deficiência também não deve ser das mais fáceis vidas.
Ocorre que o que eu senti na pele, hoje, ou melhor, na garganta, foi a impossibilidade de falar.

Cheguei ao médico e nem mesmo pude explicar o que eu sentia, o que aconteceu, o por quê de eu estar ali. Foi bem estranho. Sendo otorrinolaringologista, na mesma hora, entendeu que eu não conseguia falar e a causa eu queria descobrir ali, apesar de que minhas crises de garganta muito já me ensinaram acerca disso.
Sou quase Dra. em garganta.

Enfim, eu peguei o bloco de notas do meu celular e fiz um resumo de como havia começado essa última crise, que havia cominado na perda da voz, o que nunca havia acontecido antes.
Após verificar o que escrevi, realizou os exames básicos, de praxe e receitou os remédios, inclusive, eu já estava tomando os dois (não façam isso).

Ele perguntou se eu tinha alergia a alguma medicação e era exatamente o que eu já estava complementando no bloco de notas, pois não deu tempo escrever lá fora (é, foi rápido! Graças!).
Então, continuando... ele quis passar um exame pra verificar o motivo da perda da voz, mas eu sei bem como são esses exames e não gosto nenhum pouco, mas também não conheço quem espere o final de semana chegar pra fazer a doce laringoscopia...

Pedi, por favor, pra passar somente o remédio e, caso não fosse suficiente, durante alguns dias, eu retornaria para realizar o exame. Ele permitiu. Ufa.
Eis-me aqui, me recuperando, sem voz, escrevendo, dando voz mesmo sem falar.
Melhorando... Espero.

Cheguei ao coworking para trabalhar e estranho não poder dar um "bom dia". Gesticulei, informando que não conseguia falar, pois estava com um probleminha na garganta. Bom, pelo menos, foi o que eu quis dizer, não sei se entenderam assim.

Sei que todo mundo foi logo dando um monte de dicas pra melhorar da garganta. O Juca, da recepção, subiu logo no muro, em tempo de cair, pra tirar Romã e ainda disse assim: - olha, Romã é o seguinte: Se tirar do pé, só pra comer o pé morre! Se tirar a fruta pra curar uma doença, o pé floresce!

Fiquei foi com medo. Será que tem que mostrar o atestado médico pro pé?
Enfim. O senhor que tava lá trabalhando, consertando sei lá o quê, também veio logo com uma Romã, dizendo, parta e coloque dentro d'água e beba! Que é ótimo! Vai ficar boazinha.

Agradeci, né? Da maneira que eu pude.

Continuou a saga... fui pra cozinha... e lá, mais gente pra dizer bom dia e eu não conseguia, fazia os mesmos gestos. E, em cinco segundos, eu já tinha mais 89475 receitas pra experimentar.

Fui tomar um lambedor de alho com filhote de não sei o que dentro, que lembrei que estava lá. E aí, mandaram eu colocar 15 gotas de própoles... pense num negócio ruim! A dona do própoles ficou só olhando, quando eu terminei de tomar, ela, com aquela cara mais lavada, disse: - é ruim, né?

Respondi com uma careta. E agradeci, né? Porque, enfim, era pra me ajudar.

Depois chegou mais gente, mandando eu gargarejar vinagre de maça, com limão, dar 3 pulinhos e plantar bananeira, que era tiro e queda...(acho que literalmente)...
minha gente, melhore... né interior, não.

Não fiz, lógico, eu vomitaria com certeza.
Aí veio outra, dizendo pra eu tomar chá de alho, limão, gengibre sei lá mais o quê, mas esse eu já conhecia, é típico. Jamais eu tomaria chá de alho... só de pensar... urrggghhhh....

Na ala dos alcoólatras anônimos, o de sempre: - cachaça, mel e limão! E confesso que só não tomei dessa receita, porque faltou o limão. Mas nessa eu acredito, tem meu voto.

Mas, enfim, resumindo tudo isso, foi bem legal... o cuidado... tudo ali era pra fazer o bem... era pro meu bem. É bom que seja, né?

E espero que minha voz retorne logo e, outra, a partir de agora vou tentar me envolver mais com as causas das pessoas que não falam, quem sabe aprender libras... e ajudar na comunicação, enfim, dar voz.

Pensarei.

Enfim, vai uma receitinha aí?