Desespero


Parecia uma despretensiosa manhã de sábado. Estava eu na loja de um amigo pertinho de casa, jogando conversa fora, acompanhando e rindo das loucuras da vacinação de cachorros e gatos. Tem cada dono pior do que animal que vocês não têm noção.

Há tempos aguardávamos nosso almoço, mas nada, nada e nada. A fome só aumentava. Vez ou outra eu enganava a fome com um cafezinho. De repente, ouvimos: - socorro! socorro! Olhei e vi uma mulher saindo de casa acenando, pedindo ajuda. Corri para ver o que estava acontecendo e ao entrar em sua casa, vi uma mulher agonizando no sofá da sala.

A cena era desesperadora. Uma mulher gorda, com os braços para frente e levantados se debatia no sofá. Ela estava ficando roxa e babava muito. Seus olhos pareciam querer pular dali. Mordia a língua com força e de repente começou a babar sangue também (lembrei da menina de ouro). Liguei para que chamassem uma ambulância!


Entrei e saí da casa em busca de sei lá o quê, aquela mulher ia morrer e eu pensei: Essa mulher vai morrer na minha frente? Resolvi agir. Levantei suas costas do sofá para que pudesse ficar um pouco mais sentada, percebi que era uma espécie de convulsão ou ataque epilético, ela não conseguia respirar.

Pedi que me trouxessem um pano, teríamos que abrir a boca dela. Enquanto eu apertava as laterais das bochechas, procurando descerrar os dentes, outras duas mulheres me ajudavam a abrir a boca dela pela frente. O pano era para que ela não mordesse os dedos quando entrassem na boca, pois como a mordida é involuntária, pode machucar mesmo!

Em meio à emergência, à ausência da ambulância e às lágrimas que escorriam no rosto da mãe, a mesma indagou: - Ela vai ao hospital com essa roupa?

Os gritos se alastravam na sala pequena, toda a vizinhança estava presente, gritando. Ouvi um ‘treck’ ao abrirmos a boca da mulher, mas não tínhamos outra alternativa. Assim que abrimos um pouco, disse pra enfiar o pano inteiro na boca, e nesse momento, o alívio, ela voltou a respirar!

Retirei o pano aos poucos, solicitei que saíssem da frente do ventilador e que se acalmassem. Aos poucos fomos levantando para que se sentasse melhor e demos água. A boca toda cortada, a língua sangrando, mas, agora, respirando.

Fico aqui imaginando... Será que eu salvei a vida daquela mulher?

P.S A ambulância não chegou.