De repente



De repente! Três tiros se escutam! Pêi! Pêi! Pêi! Uns vinte segundos se passam, tempo suficiente para discernir entre tiros ou fogos! Pêi! Pêi! Pêi! Mais três sonoros e barulhentos “pêis” altos como os três primeiros! São tiros, corroboro! Apesar de tempos festivos, natal, ano novo, férias, dessa vez não era festa, era morte.

Já que eu já estava no quintal, aproveitei e subi no muro para dar uma olhada. Depois de 6 tiros, achava que já tinham acabado as balas e o defunto já estava sepultado, dava pra dar uma espiada. Ainda estava meio receosa de abrir o portão, mas quando vi a vizinhança toda saindo, era a minha vez. Corri pra pegar uma blusa e gritei pro meu irmão: - Chama a polícia, mataram um! Ele ligou pro “ronda” que agora é a moda. Nada de polícia, agora tudo é o “ronda”. Vizinho batendo na mulher? - Chama o RONDA! Vizinho barulhento? - Chama o RONDA! O cachorro tá no cio? – Chama o RONDA! Quer dizer, talvez não seja pra tanto.

Em três minutos a rua já estava lotada de gente. Em mais três minutos (pra combinar com o número de tiros) não dava mais pra ver o morto. A roda já havia se formado ao redor pra ver o sangue do desgraçado agonizante. Nada de sentimentalismos, só curiosidade. As histórias do que aconteceu estavam sendo formadas: – Passaram no carro e atiraram! ; – Mas disseram que foi um cara de bicicleta! ; - Mas eu vi um carro parado aqui! ; - Deve ter sido só pra olhar! E ainda o laudo vai sendo registrado: - Dois na cabeça, esse já era. ; - Não, talvez sobreviva, foi só na barriga!

Ninguém sabe bem o que aconteceu. Peraí! Parece que tinha gente na rua na hora do acontecimento e aos poucos os repórteres, entrevistados e peritos amadores vão se formando, quem sabe saia daí a inspiração para seguir uma profissão. Tem que tentar tirar algo bom de tudo.

A polícia chegou! Errei de novo. O RONDA chegou! A polícia da boa vizinhança! Tão preparados. Se algo além do jorrar de sangue marcou, foi o cara do ronda saindo do carro e com a mão tremendo, procurando algum documento no quase morto. Devia ser o primeiro morto da vida dele. Como diria uma boa cearense: - Deu foi pena!
Bom, ele não tinha mais o que fazer. Sem documentos, sem esperança de vida, agonizante... o morto tava quase morto. Mais e mais “rondeiros” chegando para tentar manter a ordem. O chefe da gangue do bairro chegou pra checar se era um dos dele, mas parece que não conhecia. Será? Eu fico imaginando o que aconteceria se alguém gritasse: - Pega ladrão! A carreira ia ser grande! Porque o que tinha de vagabundo não era brincadeira.

A esquina ficou cheia. Não duvido de que o autor do crime tenha dado só a volta no quarteirão e tenha voltado para ver se o serviço tinha sido concretizado com sucesso. Porque mesmo com 4 pessoas no local do crime, ele deu os 3 tiros e como o moço ainda estava correndo, depois de uns sonoros palavrões indignados porque o rapaz ainda não tinha morrido, deu mais 3. Quem duvida que ele pudesse estar lá?

Nunca pensei que 6 tiros fossem tão chamativos. Tanta gente que eu nem sabia que morava ali por perto, apareceu. Tanta gente sem ter o que fazer em plena 11:30h da manhã de uma sexta-feira. Não só os vizinhos, mas os vagabundos da vizinhança fizeram praticamente uma confraternização. Um reencontro. Eu, me encaixando no grupo dos vizinhos, claro, revi meus colegas de vizinhança que não via há bastante tempo. Comentei que quando quisesse reunir o pessoal, era só dar uns tirinhos que todo mundo correria pra ver. Nessa confusão, acabei conhecendo duas vizinhas distantes e um amigo de um amigo que estava na casa dele na hora do ocorrido e conversamos, os três, sobre nossa constituição, sobre nossas falhas leis, sobre os indultos aos presos, sobre a nossa frieza e insensibilidade ao que está acontecendo no mundo. Essa é a hora de criticar o governo.

Ninguém aflito, ninguém chorando, muito menos preocupado, muitos rindo, conversando alto, gritando, sendo ridículos enfim. Já tinha até uma arquibancada formada na escada que dá acesso a uma das casas do bairro e já estava lotada. Visão privilegiada, dava pra ver tudo de cima e não estavam cobrando ingresso. Parece que o negócio lá tava mais animado porque algumas meninas estavam rindo alto, quem sabe lá de cima elas viram mais algumas marmotas que eu não cheguei a ver.
A PM e seus soldadinhos delicados tentavam manter a ordem, afastando, DELICADAMENTE, (perceba a ironia) as pessoas de perto do rapaz encolhido no chão. Um deles, segurando uma escopeta, bem fardado e com aquela arrogância de fazer dó falou: - Afasta aí “rapá”! Não tá vendo a “parada” aí não “véi”?! Dá até vontade de rir e eu ri. Quanta ignorância.

Meu amigo se você disser o que é a “parada aí” e “véi” pode até ser que o rapaz se afaste. Que linguajar maravilhoso. Tão quanto o dos vadios. Não vi direito, mas acho que quando ele falou: - Não tá vendo a “parada” aí?, um bocado de gente olhou pro chão, procurando um bagulho jogado, quem sabe teria caído do bolso do moço na hora dos tiros. É melhor ele ter cuidado com o dialeto.
O SAMU chegou depois de meia hora mais ou menos. Depois de 6 tiros à queima roupa era bem capaz mesmo do morto ainda estar vivo. Passaram uns 5 minutos e o SAMU foi embora, veio só deixar o atestado de óbito que já deveria estar pronto. Parecia o fim, mas não era. A confraternização continuou até umas 13h da tarde, esperando o “RABECÃO”, afinal, o papo tava bom, tinha que aproveitar a oportunidade de reencontro. Alguns foram almoçar, outros estavam achando o ambiente perigoso, era melhor entrar. E assim foi.

E assim fomos. Entramos para almoçar. Insensíveis ao que aconteceu. Insensíveis com a morte, com o sofrer, com o sangue, com a agonia. A sociedade tem nos tornado reféns do medo e donos da insensibilidade. Estamos nos acostumando com a violência e com a morte.

Os tiros nós confundimos com fogos, a tristeza com confraternização. Mais uma alma indo pro inferno com seis tiros e nós entrando para almoçar. Apesar de acostumados, nossas atitudes não podem ser acostumadas. Não clamemos por sabedoria, concentração, sucesso, mas por “assombro”. Isso mesmo, “assombro”. Admiração excessiva, espanto, maravilha, prodígio. Para que possamos ter a sensibilidade, bondade, amor de Cristo nos melhores e piores momentos de nossa vida ou da vida do próximo. Para que no dia em que virmos um quase morto no chão, clamemos por misericórdia e o toquemos suplicando por misericórdia e justiça. Nós não conseguimos ver misericórdia e justiça para a morte de um “injusto”, mas, felizmente!, não cabe a nós misericórdia. Cabe a nós apenas não perdemos o assombro.

Que a paz de Cristo esteja convosco.

P.S Crônica baseada no assassinato ocorrido no dia 16 de janeiro de 2009 às 11:30h aproximadamente no cruzamento da rua Gonçalves Ledo com Pinho Pessoa.

Dilkinha.